Eleitor descolado
23-Oct-2008
MAURO PAULINO
AS SÉRIES de pesquisas eleitorais deste ano e o resultado das votações nas maiores cidades brasileiras revelaram o avanço de um novo eleitor, cada vez mais numeroso e que se insinua a cada pleito municipal. É um eleitor atento ao poder de interferência da prefeitura em seu cotidiano de trânsito, ruas inseguras, escolas, hospitais e impostos.
Elabora o voto com tempo e muda sua leitura do processo eleitoral à medida que recebe e interpreta as informações das campanhas e do noticiário, contrapondo-as às suas necessidades imediatas e às de seu entorno. E o faz
até o momento do voto, deixando a decisão definitiva para o próprio domingo, a caminho do colégio, na fila de votação ou mesmo diante da urna. Despreza partidos, ideologias e a política tradicional, mas permanece atento à capacidade demonstrada pelos candidatos em comunicar com clareza os problemas urbanos e suas propostas para solucioná-los. Avalia posições diante dos oponentes e das dificuldades administrativas, preferindo os que demonstram bom humor e descontração, mas muda de idéia ao perceber alguma falsidade ou fragilidade.
Considera apoios, mas não como prioritários na decisão do voto. Pode até aprovar e defender a administração de um governante, mas rejeitar o candidato apoiado por ele para não votar em "pau-mandado". Evita fortalecer demais um político bem avaliado para que continue mostrando serviço e não se acomode na alta popularidade.
Prefere não dar muita moral para político nenhum. Já habituado ao voto, criou intimidade com a liturgia bianual dos domingos de outubro. Sabe o melhor horário para ir ao colégio, onde estacionar, em que ponto de ônibus descer e onde fica a sala de votação. Muitas vezes encontra o mesmo mesário de dois anos atrás.
E conhece os caminhos trilhados pelos candidatos nas propagandas, entrevistas e nos debates tão bem quanto o caminho das urnas. Por isso não hesita em mudar de rumo quantas vezes se sentir ludibriado ou não totalmente convencido.
Aguarda os últimos debates, propagandas e pesquisas antes de tomar a decisão definitiva. E encontra legitimidade no exercício do voto útil. A aparente apatia percebida nas ruas até mesmo no dia da eleição guarda uma evolução na relação com o voto. Esse comportamento começa a provocar também mudanças de atitudes e de qualidade no perfil dos candidatos, das propagandas e dos discursos.
Candidatos plastificados podem ainda surgir, crescer e impressionar durante a campanha. Mas precisarão ir além para se sustentarem até o momento da confirmação do voto na urna por esse novo eleitor, já numeroso o suficiente para mudar o rumo da eleição quando bem entender.
MAURO PAULINO é diretor do Datafolha
Data: 23/outubro/2008
Caderno: Brasil
Seção: Tendências e Debates
Página: 2
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